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Pra que mentir?

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3 de julho de 2020
Por Vera Vaia

Pra que mentir

Se tu ainda não tens

Esse dom de saber iludir?

Pra quê? Pra que mentir

Se não há necessidade de me trair?

Tem razão o Noel Rosa em fazer essa pergunta. Pra que mentir, se a verdade é inexorável e, um belo dia, ela acaba caindo na conta do mentiroso, igual boleto bancário?

Como se diz, a mentira tem perna curta e, em alguns casos, vem com nome e sobrenome.

Nestes últimos dias, dois desses nomes se destacaram no cenário político atual (os outros já vinham mentindo há tempos, então não vão entrar na lista): o advogado que escondeu Fabrício Queiroz, Frederick Wassef, e o ex-quase ministro da Educação Carlos Alberto Decotelli.

Do primeiro nem há muito o que falar, porque de um advogado que se presta a esse tipo de serviço podemos esperar por mentiras bem cabeludas. Mas o outro surpreendeu.

No dia em que foi cogitado seu nome para o Ministério da Educação, os comentaristas políticos estavam animados e apostavam que essa tinha sido uma escolha acertada.

Afinal, o sr. Decotelli era experiente por já estar ocupando um cargo dentro do MEC, portanto seria uma escolha técnica e não uma da ala ideológica, como aconteceu com o “falecido” Weintraub.

Senti um “agora vai” por parte da mídia e até mesmo por parte dos integrantes da área de ensino.

Eu mesma me animei. Oba! Vamos ter ministro que não vai “insitar” a violência contra estudantes, que não apoiará a “paralização” de pesquisas e que não irá tranquilizar os guerreiros do PT e de seus “acepipes”. Seria “imprecionante” enfim ter alguém articulado e com conhecimento na área, pra fazer decolar essa Educação que até hoje não saiu do chão.

Mas vai que daí esse senhor de sorriso largo e cheio de boa vontade resolveu caprichar no curriculum vitae.

Meteu lá um doutorado que teria conseguido na Argentina, mas que não concluiu (sua tese não foi aprovada), um pós-doutorado na Alemanha que não aconteceu (não dá pra fazer pós-doutorado sem o prévio doutorado, né?), e, como sujeira pouca é bobagem, resolveu usurpar textos dozotro e meter na sua tese como se fossem seus. Só faltou imitar o menino que viralizou nas redes sociais e finalizar com “é verdade esse bilete”.

Coisa feia, seu quase-ministro! Achou que ninguém iria escarafunchar sua vida?

Que molecagem!

Mas aí fico pensando por que ele teria mentido. Me perguntei e eu mesma respondi: ele deve ter surfado na onda desse governo demente que mente o tempo todo.

Então se perguntou que diferença faria uma pinta a mais na onça, se isso contribuísse para o engrandecimento de sua pessoa?

Parece pouco provável que algum candidato a ministro comparecesse diante de um presidente sério com um curriculum cheio de inverdades. Nem mesmo no Brasil, onde 75% dos candidatos a empregos mentem no curriculum vitae, segundo levantamento da DNA Outplacement.

Ok que tá cheio de mitômano (nesse caso específico, mitômano quer dizer adorador de mito que mente bagaray) espalhado por aí, mas enfeitar o pavão pra conseguir um cargo público, justamente nessa área, onde o assunto Educação deveria ser elevado à quinta potência, já é demais da conta!

E como se não bastassem as mentiras do candidato, me deparo lá no twiter com ferrenhos defensores do presidente, e por tabela, do novo quase-ministro.

De acordo com eles, todos os que estavam condenando as mentiras do Decotelli eram racistas que não suportavam a ideia de o Brasil ter um ministro preto.

E pra não ser chamada de racista aqui também, quero deixar claro que o meu prêmio Framboesa vai exclusivamente para a falsificação de dados. Mentira não, pirulão!

Ciao! Vou voltar pro Noel Rosa, na voz do queridíssimo Paulinho da Viola!

pra que mentir tanto assim...

 

 

 

 
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